20111026

A destruição do Victory no sistema Boru, do império Lecenti

Nunca vi tanta gente a chorar e cabis-baixo pelos corredores. Há desde há semanas um ambiente pesado, desde a ponte até à sala das máquinas, do posto de comando do Tarsus ao soldado de infantaria mais raso, todos conheciam alguém a bordo do Victory. 189 mortos, incluindo toda a tripulação do Victory - 60 baixas - e três dezenas de feridos, alguns continuam a sucumbir neste preciso momento.

Ontem foi um dia particularmente terrível. Estava a recalibrar os inductores plasma do Arctan com Elingo. Eu tinha reparado que ela não estava concentrada, ela que costuma ser tão eficiente quanto fria no seu trabalho. Os relés tinham carbonizado e ela teimava em tentar ligar os contactos de cobre. É quase sempre ela que trata do check up do Arctan, mas raramente as nossas conversas ultrapassam as duas ou três frases com as informações mais básicas. Os Xinomas contumam ser reservados, de sentimentos quase inexistentes em público, mas os seus quatro braços tornam-nos inequivocamente os melhores técnicos e pilotos da frota. Mas no momento em que lhe apontei a sua desatenção, desfez-se em lágrimas. Eram de um rosa claro e escorreram-lhe pelo rosto branco, longo e belo. Lobti, o seu companheiro, era engenheiro a bordo do Victory, confiou-me, a soluçar. Pus-lhe um braço por cima dos ombros e ela encostou a cabeça no meu peito e abraçou-me. Tentei reconfortá-la, convidei-a para ir até à messe dos oficiais.

Num sofá de canto vi Cross que reconfortava Shantai, uma lindíssima cinquentona, com um braço ao peito, e que perdera duas irmãs na batalha. Juntámo-nos a eles e recordamos alguns dos que caíram em combate, entre lágrimas e risos.

Voltei aos meus aposentos, não liguei a luz, deixei-me cair no sofá sem forças e chorei pela primeira vez a morte de Drago.