20100515

Log 16052409 - Joe 1.1.0.

Joe ainda se lembrava do seu primeiro dia a bordo do Tarsus-UNS2998, um cruzador de longo porte, um dos mais poderosos da federação, que servia simultaneamente para missões de exploração intergalácticas, bem como para intervenções em conflitos armados. Tinha 23 anos quando para ali fora destacado e, entretanto, já tinham passado mais de 12 anos.

Depois de acabar a sua formatura na academia militar Estras 3, em Buenos Aires, havia postulado para uma missão interestelar, mas tinha apenas conseguido ser enviado para o Posto Lunar Sul 2 como "pisa-papéis", como ainda hoje se designavam os estagiários administrativos. Em onze meses, três ou quatros missões haviam lhe sido negadas por excesso de contigente, devido à sua juventude, inexperiência ou a falta de referências de altas patentes. Ou por todas essas razões ao mesmo tempo.

A verdade é que eram necessários soldados e oficiais para focos de conflito com os Kolnares, em Nari, com os Shak'rtai, na constelação Tauris, e até para policiar colónias e postos federais um pouco por toda a galáxia. Faltavam naves de transporte e de guerra para dar resposta aos pedidos que chegavam de todos os quadrantes. Escasseavam também as naves de carga para trazer dos planetas mineiros e das luas industriais as matérias-primas necessárias para fazer crescer a armada. Os atrasos na entrega desses mesmos materiais e na conclusão dos navios também não ajudavam a melhorar a situação. A Federação tinha apressado a construção de novos cruzadores, mas os navios da classe UNS demoravam pelo menos três anos a ser construídos e as naves de médio-porte, treze meses.

Finalmente, Joe conseguiu uma missão de três meses a bordo do Not Ikias, um bombardeiro federal onde fez as suas provas sob as ordens do capitão Anton Ralph. Foi lá que conheceu o sargento Charlie Ross e os seus loucos soldados da fortuna: Hernán Couteaux e Johnny Little. E a escultural e bela Chrissy Dessah. Era uma equipa de choque, que funcionava como os dedos de uma só mão. Dizia-se que era por isso imbatível.

Conta-se que depois de o Noikias ter sido abatido na nebulosa de Nari por uma colmeia kolnar - onde Anton e a sua equipa tinham acorrido para responder a um pedido de socorro, apesar de o alto comando federal lhes ter formalmente interdito agir fora das fronteiras federais (a zona franca) e por esse motivo lhes ter recusado enviar auxílio, condenando-os assim à sua sorte -, a equipa do Not Ikias escapou, a nave não, mas os elementos sobreviveram algures na cintura de asteróides de Ecopo e reconstituiram-se como uma tropa mercenária na lendária nave Horizon. Não se sabe bem porque razão a major Dessah abandonou a equipa e regressou à Terra, mas foi substituída algum tempo depois por Ushedesh, um nativo do sistema das Hesperides. A partir daí parece que a equipa de Anton ficou mais forte do que nunca. Mas nessa época já Joe não fazia parte da equipa.

Posteriormente, por diversas ocasiões, Joe teve que trabalhar com Anton e os seus mercenários, lado a lado, mas também teve de enfrentá-los algumas vezes. Hoje, dez anos depois do primeiro encontro, alguns deles como Anton, Hernán e Ushedesh trabalhavam de vez em quando com a tripulação do Arctan, a nave que Joe comandava agora. Havia sobretudo entre eles respeito, mesmo se Joe sabia que eles eram incontroláveis e não tinham nem lei nem grei. Paradoxalmente, sabia-o intimamente: também fora graças a eles que muito aprendera sobre o facto de trabalhar, viver e ... sobreviver no espaço.

Foi graças às referências do capitão Anton (antes de este se tornar um militar a soldo próprio) que o recomendou junto do sargento Mahlia Gouvic e do capitão De Sotto, que recebeu a afectação para o Tarsus, onde chegou a 3 de dezembro do ano estelar de 2396.

Joe começou no Tarsus como sargento no pelotão Hvedrung do capitão Rod Ginkai, um dos vários pelotões do Troy, a maior nave de apoio do Tarsus; depois, passou a tenente sob as ordens do capitão Markus Wojtech, quando Ginkai desapareceu em missão em Remam 7; promovido a capitão, Joe foi chamado a trabalhar com o major Gibran Artilius, que comandava o contra-torpedeiro Arctan.

Passados cinco anos no Tarsus, foi-lhe entregue o comando do Arctan, quando Gibran foi nomeado coronel no posto estelar Gernsback. Hoje Joe era major da pequena nave, integrante do Tarsus. A sua equipa era hoje constituída pelo capitão Cross Silva, um destemido e sanguíneo oficial dos fuzileiros, que tinha já recebido a cruz de prata da elite militar; a tenente Giulia Schott, arrojada perita em estratégia militar; o calmo e sereno sargento Nico Marczin, que era igualmente médico-op; Luke Saare, perito em artilharia pesada; e Pete Zhou, especialista em navegação e exotransmissões.

Nico era o último a ter integrado a equipa e ainda procurava as suas balizas. Giulia tinha substituído Yonna Driack quando foi descoberto pelas instâncias militares que Joe e Yonna se tinham relacionado intimamente. Joe ficara destroçado quando lhe retiraram da equipa a líndissima franco-polaca, mas não pode impedir que ela fosse destacada para um dos postos mais longíquos da federação, a estação Livingstone. Sabia que depois de alguns anos ela tinha casado com um engenheiro irlandês da base orbital terrestre no planeta vermelho de Akam, um Scott qualquercoisa. Já fora há quatro anos, mas Joe ainda pensava nela.

Quando começou a comandar a tripulação do Arctan, do esquadrão faziam ainda parte as primeiras ajudantes Vina Gattai e Naty Morales, mas estas tinham deixado a equipa pouco antes de Yonna, por solicitação expressa de Joe. A primeira foi transferida para as navegações na meia-popa do Tarsus. A segunda, depois de ter passado por uma outra equipa, em que havia sido acusada de insubordinação qualificada, foi finalmente recambiada para a Terra, expulsa do Almirantado. Diz-se que reintegrou a vida civil reciclando-se em guia turística na Antártida. Joe desconfiava que haviam sido elas a denunciá-los, Yonna e ele, junto dos seus superiores e preferia mil vezes tê-las abandonado num planeta morto ou à beira de um buraco negro.

20100514

A chegada ao Tarsus 1.1.1

A primeira imagem que retinha daquele dia que devia ser o primeiro a bordo do Tarsus e a que mais o impressionara foi a do cruzador, majestoso, brilhante e tranquilo, ancorado na doca 2 da estação orbital Isis.

Claro que já vira animações pluridimensionais do Tarsus, conhecia os planos, a história e os relatórios das missões mais importantes da nave. Investigara tudo o que havia para saber sobre o seu futuro posto. Mas quando viu a nave ali diante de si, estendendo-se à sua frente, gigantesca - , um cruzador com capacidade para cinco mil tripulantes, que integrava 25 esquadrões de intervenção, naves de carga, drones de reconhecimento, quatro estufas de vegetação artificiais, as maiores da frota no maior dos navios da federação, - não se sentiu um privilegiado, como teria ele próprio esperado minutos antes, mas subiu-lhe até à garganta uma angústia pesada, como se o seu destino lhe tivesse naquele momento a escapar das mãos e já não pudesse recuar. Como se já fizesse parte de algo maior.

Conseguiu projectar-se num futuro provável e distante, e contemplando a sua vida inteira daquele porvir estranhamente lúcido, concluía que toda a sua existência se diluiría naquela nave imensa, nesse espaço sideral insondável, e que, no fim de contas, o breve momento entre o seu nascimento e a sua morte não duraria mais do que um nanosegundo na história multimilenar deste universo.

Devia ser isto que os psicoquiatras chamavam "depressão do espaço", pensou. "Este sintoma traumático é corrente quando um ser pensante é posto pela primeira vez diante da sua importância relativa quando comparada à grande ordem das coisas ou ao grande caos do universo, depende do casos...", lera algures num manual na academia. Um excerto ao qual nem prestara muita atenção na altura, mas que agora lhe vinha à memória como se reavivada por um choque mnemónico.

O Homem ainda agora aprendia a despregar os pés pesadões da sua Terra-mãe e apesar de saber que tudo nele o impelia a constantemente ultrapassar-se, a ir mais além, na busca constante de novos horizontes e limites, tanto físicos como de consciência, o seu subconsciente animal e primitivo, continuava instintivamente a travá-lo, a fazê-lo hesitar, deixando-o duvidar se não seria aquele planeta o único ermo a que estava destinado e que tudo o mais era apenas ambição desmedida, anti-natural e estava assim predestinado ao fracasso e a conduzir inefavelmente, mais tarde ou mais cedo, a Humanidade à sua extinção. "Velhos do Restelo haverá os sempre!" dissera-lhe um dia o velho professor Gonzaga, da Universidade de Exobiologia de Lisboa-

O velho Gonzaga tivera depois que lhe explicar o contexto cultural da expressão. Contara-lhe que quando os naus portuguesas partiam do cais lisboeta do Restelo no séculos XV e XVI, para descobrir novos mares e terras por esse Mundo fora, havia sempre no embarcadouro esposas, filhas e mães chorando os marinheiros que não sabiam se haveriam de voltar a ver um dia. Mas havia também uma multidão anónima que vituperava contra o rei e a corte e que defendia que Portugal estava apenas a perder o seu sangue e as suas lágrimas nesses mares salgados e que essas empresas loucas longe da pacífica praia lusitana não trariam nada de bom senão a ruína do reino. Na memória colectiva portuguesa, a expressão "Velhos do Restelo" passaria a designar, a partir daí, as vozes contrárias que sempre se levantam quando alguém tenta empreender algo de novo e arrojado.

Era isso que pregavam também algumas seitas e religiões humanas até ao princípio do século passado, que o Homem não tinha nada a fazer fora da Terra e que este devia antes concentrar-se em cultivar e cuidar o Eden que Deus, Alá ou Jeová nos transmitira.

Embora Joe não se considerasse um ser religioso, mas medianamente racional, eram esses os pensamentos que se entrechocavam agora em catadupa no seu cérebro. Joe tinha a convicção íntima de que os seus genes, e os dos seus conterráqueos por extensão, por mais que evoluíssem cognitivamente, eram portadores de algum gene que tenderia com a raça humana sempre a explicar o inexplicável, enquanto não fosse explicado e compreendido, recorrendo ao sobrenatural e ao místico.

Sentir isso não era nada mais do que humano. Mas Joe recompôs-se, endireitou os ombros e alisou o uniforme negro. Não queria que ninguém e sobretudo os seus superiores no Tarsus, onde estava prestes a apresentar-se, suspeitassem dos mínimos sintomas de depressão no novo recruta. Caso contrário, sabia-o perfeitamente, ficaria de psico-quarentena, teria depois de submeter-se a mais avaliações e testes, e como a suspeita de depressão ficaria para sempre registada no seu dossier militar, a sua afectação no Tarsus estaria altamente comprometida.

Enfiou os dedos das mãos uns entre os outros, soprou, fez estalar as falanges e tentou descontrair-se.

Chegara no dia antes à estação Isis, lugar que não conhecia por na sua curta existência ter apenas visitado algumas vezes duas das outras estações orbitais.

A estação civil Gaia, a maior das seis estações orbitais da Terra, era quase uma extensão do planeta e nela residiam na altura cinco milhões de seres humanos, sem contar os dois milhões que iam e vinham regularmente das outras estações e da Terra para ali trabalhar. Joe havia lá morado seis anos, na sua infância, quando os pais haviam sido para lá enviados em trabalho. E visitara algumas vezes os postos comerciais Mercury e Hermes.

Três das outras estações eram militares: Isis, Suntzu e Lincoln. As duas outras, Mercury e Hermes, eram consórcios comerciais.

Flashback histórico


Isis funcionava como sede do Almirantado e era a mais antiga das estações orbitais da Terra. Datava, dizia-se, do fim do século XX e era quase ali que tinha começado a conquista espacial. Na realidade, já nada subsistia da estação espacial internacional ISS na actual estrutura da Isis.

Contava-se que alguns dos velhos módulos originais do ISS estavam expostos num departamento museológico, onde jaziam também o suposto fato espacial do primeiro cosmonauta, Yuri Gagarine e o do primeiro macaco americano astronauta. Mas já nem os turistas visitavam esse lugar, porque era acima de tudo considerado um local mercantil onde negociantes pouco escrupulosos tentavam vender desde pré-históricos autocolantes em papel com o logo da antiga NASA a diários de bordo falsos da estação Mir em russo fonético do século XX ou até miniaturas do Apolo 11 e da nave Enterprise. Tudo ali soava a falso.

A ISS fora durante mais de quarenta anos a única estação espacial e o "i" maiúsculo, acrescentado em 2045 por decisão das Nações Unidas, pretendia significar simultaneamente que a letra devia ser lida como o algarismo romano um, e que esta era portanto a primeira estação orbital terrestre; mas a escolha desta letra, em referência à importância da unidade "i" na Matemática (considerada a linguagem universal, na época), demonstrava sobretudo toda a preponderância que a estação viria a ter relativamente às seguintes, que entretanto as instâncias militares e privadas estavam a projectar. O nome de divindade (Isis: deusa egípcia) com que ficou baptizada a estação a partir daí, mais ou menos voluntariamente, fez com que para algumas das outras estações também se optasse por nomes com conotação mitológica.

Em 2045, a estação Isis passou totalmente a ser gerida pelas Nações Unidas, organismo federativo que havia saído fortalecido e legitimado depois das guerras energéticas dos anos 2020-2040 (a guerra da água, 2018-2032; a guerra do petróleo, 2020-2038; e a guerra do gás, 2025-2040) e onde a China e a UEMed (os 57 estados-membros da União Europeia e os nove do Mediterrâneo) eram as regiões do planeta mais influentes.

Por despeito, mais do que por estratégia, todos os historiógrafos concordavam em dizê-lo, os norte-americanos lançaram então a construção da estação Lincoln e os chineses, quase logo de seguida, a da estação Lao Zedong. As estruturas primárias destas duas estações ficaram prontas nos anos 2060. Daí até ao fim do século começou a verdadeira conquista do sistema solar pelo Homem, uma febre que não se sentia desde os anos 60 do século anterior. Também aí a ONU teve que desempenhar um importante papel de árbitro.

Os chineses construiram a primeira base lunar em 2075 e os Estados Unidos instalaram a primeira base em Marte em 2085, quarenta anos depois da data prevista pelo programa espacial americano no fim do século XX. O consórcio privado Mercury (fundos indianos e árabes, na sua grande maioria) lançaria a construção de uma primeira estação orbital em 2093, primeiro destinada simplesmente ao turismo espacial de massas mas depressa o transporte de mercadorias e de passageiros se tornaria o principal fundo de comércio. No fim do século, a UEMed, o Mercosul (América Central e Sul), a UAfrica (países da África subsahariana) além de alguns países aliados como o Canadá, o Japão e a Austrália, entr outros, decidiram aliar-se para construirem uma base orbital comum: Atlantis.

Durante quase cinquenta anos, as escaladas armadas pelo controlo do sistema solar opuseram nações e quase destruiram a economia mundial por diversas vezes. Em 2130, foi finalmente assinado o Armistício Mundial e o Acordo Pax Gaia. em que todas as nações signatárias concordavam em prestarem-se assistência mútua no espaço e a colaborar internacionalmente na exploração do sistema solar e da galáxia. Em 2145, depois de algumas hesitações políticas, sobretudo das grandes potências, e no mesmo dia em que se celebravam os duzentos anos da sua criação, cujo princípio primeiro era fomentar a paz entre os povos do Mundo, as Nações Unidas transformavam-se, quase naturalmente, em Federação Planetária, e o objectivo estava atingido.

As estações (à excepção da Mercury) passaram sob a tutela da federação, e enquanto a chinesa mudou de nome para Suntzu e se tornou a sede da academia espacial federal, a americana guardou o nome e tornou-se a central administrativa do novo Executivo planetária. A estação Isis tornou-se sede do almirantado da frota espacial, doca de construção de naves e centralizou os recursos humanos e materiais de todas as antigas frotas espaciais nacionais. A mais recente e mais pequena das estações, Atlantis, passou a ser uma estação civil. Em 2200, a estação foi rebaptizada Gaia em honra do 50° aniversário do acordo do mesmo nome e na altura era já a maior das estações orbitais da Terra.

A estação Hermes começou a ser construída em 2160, quando a população de Atlantis estava a crescer de tal forma que a estação Mercury, embora tivesse já multiplicado muito a sua frota marcante, não conseguia dar vazão ao transporte de passageiros, de mercadorias e às transacções comerciais entre o planeta e os seus cinco satélites artificiais.

Joe nunca estivera na estação Isis, que era reservada unicamente ao pessoal militar e não conhecia ninguém ali. Passara a noite inteira numa camarata a olhar o tecto, a revisionar os ficheiros que recolhera sobre o Tarsus para se preparar à apresentação do seu oficial superior no dia seguinte, o dia 3 de Dezembro de 2396.