20090521

Os primeiros tempos: Joe no Pelotão Hevdrung

Nos primeiros tempos a bordo do Tarsus, Joe não conseguia deixar de sentir como se fosse um forasteiro, um estranho, mais do que isso - um acessório supérfluo que não pertencesse àquele cenário, como se não fosse legítimo ele estar ali e tivesse ali vindo parar por fruto do acaso ou, pior, por engano. Mas, outras vezes, descobria-o aos poucos, era com aquilo que sonhara a vida toda e sabia-o intimamente, era para aquilo que era feito.

Noutras vezes, o sentimento de estar a mais era reforçado por aqueles que o olhavam de soslaio ou com desconfiança. Era o caso dos tenentes Wojtech e Fink.

Felizmente não eram todos assim e o pelotão Hevdrung, onde começara por ser integrado de início, até o acolhera bem. Faziam parte do esquadrão de ataque do Troy, a maior nave de apoio do cruzador intergalático Tarsus. Como pelotão de jovens recrutas que era o H, eram pau para toda a obra e eram-lhes relegado as missões mais taxativas, de escolta, de vigilância, de acompanhamento, o trabalho de terreno e de rotina que não interessava aos outros. O H servia para que os novos a bordo se habituassem ao ramdam do Tarsus e o alto-comando soubesse posteriomente onde encaixá-los.

O H era passagem obrigatória para quase todos os "caloiros" e todos tinham como objectivo ser promovidos para uma outra equipa o mais depressa possível. Era preciso fazer as provas.

No primeiro dia, Joe entrosou conversa com Clark, Lowry e Tellini. Os outros pareceram-lhe mais distantes. E o futuro viria a dar-lhe razão nas suas primeiras impressões.

20090520

20090519

O capitão Ginkai

No outro dia de manhã, Joe apresentou-se às 8000h no gabinete do capitão Rod Ginkai, como lhe ordenava o dossier de missão que tinha recebido do Almirantado. Ginkai era um pesado e gordo molosso com origens mongóis e russas, como Joe viria a ficar a saber depois. Tinha um ar intimidante, mas era bom homem, excepto quando se irritava. Tudo isso Joe viria a descobrir pela vivência sob as ordens de Ginkai. Naquele momento, Joe estava de facto intimidado.

Ginkai acolheu-o com um "zdravstvouytié!" (bom dia) gutural, o que desde logo mostrava que o capitão conhecia as origens russas e arménias de Joe. Ou tê-lo ia feito por pura afirmação étnica? Em todo o caso, o capitão fê-lo sentar, ordenou a activação de um ecrã-holograma meio-metro por cima da secretária. “Vamos lá ver quem temos aqui!” pediu com voz autoritária e o ficheiro militar de Joe logo começou a desfilar no quadro transparente. De onde estava, Joe via as informações a correr ao contrário, mas percebia o que ia retendo a atenção de Ginkai. Enquanto lia, o capitão rosnava para que o ficheiro voltasse atrás, para que abrandasse ou acelerasse, para que sublinhasse algumas passagens. Lia, relia e mirava Joe entre duas linhas. A testa larga franzia-se, circunflexava as espessas sobrancelhas, o que fazia com que entre estas e as bochechas salientes os olhinhos pareciam mirrar até se tornarem pequenos pontos negros. Depois, de um brusco, elevava o sobrolho, voltava a mergulhar os olhos no ecrã, quase como se procurasse algo.

Joe notou que ele passara sem prestar a mínima atenção a tudo o que tinha a ver com a sua biografia civil e começara apenas a ler com atenção a partir do momento em que Joe entrara na academia de Buenos Aires. Interessou-lhe particularmente as suas especificidades em camuflagem e soltou uma larga gargalhada estremeçedora quando leu que o recruta à sua frente era perito em acções furtivas. Nisto, ordenou ao ecrã para apagar-se e dirigindo-se a Joe, perguntou:

- Então, soldado, já com saudades de Buenos Aires?

- Só lá estive para a minha formação militar, capitão! Na realidade, sou arménio e...

- Soldado, não lhe perguntei sobre as suas origens -, rosnou o capitão, sinal sonoro que fez com que Joe se endireitasse mais na cadeira. Mas depois o outro abriu um sorriso.

- O que eu queria saber, Iktana, era se aqui em cima já sentia falta dos bons ares de Buenos Aires, eheh. Ah, tenho boas recordações dessa bela cidade onde ganhei bastantes corridas de carros e ... - após num suspiro, soltou - ...onde conheci uma Nora Silvera que me enfeitiçou. Ah, que mulher endiabrada!

Dizendo isto esfregou os flancos da barriga com satisfação. Era um gesto peculiar, que Joe estranhou mas ao qual, não o sabia ainda, haveria de habituar-se.

- Sabe Iktana, sou um maluco por corridas de bólides, adoro conduzir. Em terra firme, quer dizer. Conduzo tudo, desde Panhards, Peugeots GT e Maserratis do século XX, a Ferraris Bold, Spikes 200, Spiders Nanos e B-Mercedes Turbo Lifter, Strike Panthers. Tudo o que tenha quatro rodas, eheh! Quando era jovem fui piloto profissional, sabia, Iktana? Fui campeão, sete anos consecutivos, do Circuito Panamericano e cinco vezes campeão do Ráli de Marte.

Joe não percebia nada de carros, tinha vagamente ouvido falar nessas corridas quando era jovem e conhecia muito menos o glorioso palmarés do capitão. O mundo das corridas era algo por que nunca se interessara.

- Bom, não faz mal, Iktana, ninguém é perfeito, eheh! Já fico contente por você ser um intercontinental, como eu, raios, e não um puto yankee! Bom, venha daí, vamos dar uma volta ao cruzador e vou-lhe apresentar os outros elementos do meu pelotão.

Enquanto subiam num elevador tubular para um piso superior, o capitão continuava tagarela:

- Já alguma vez esteve a bordo de uma nave como estas, hein? – Joe não teve tempo de responder, já o outro prosseguia - o Tarsus é considerado uma das jóias da coroa da federação, sabia? Foi construído há apenas 15 anos, mas sempre que vem à doca é reapetrechado com a mais recente tecnologia de guerra e exploração. Sim, porque temos que estar prontos para o que der e vier, não é, Iktana? ... O Almirantado tem muito orgulho nesta nave e quer aguentá-la performante o mais tempo possível. É uma das únicas da sua geração a ter efectuado missões até Gernsback, nos confins conhecidos do universo. As nossas missões de exploração duram normalmente cinco anos, mas muitas vezes temos que acorrer aos quatro cantos da Via Láctea para as mais diversas urgências.

Nesse momento, passaram por Joe e Ginkai duas siamesas de Cassiopeia. Eram humanóides, mas eram sobretudo reconheciveis pelos seus olhos azuis em amêndoa e as orelhas elegantemente estriadas. Dizia-se que as cassiopianas eram sempre de uma beleza estonteante e adoravam sobretudo os humanos do sexo masculino. E apesar destas serem duas num só corpo, uma loira, a outra morena (era cosmética, porque na realidade todos os nativos da constelação de Cassiopeia tinham o cabelo albino), eram duas beldades fatais. Eki e Aki eram operadoras de transmissão no Tarsus. Tinham um corpo esguio, quatro braços e do mesmo tronco despontaram debaixo do uniforme ajustado ao corpo dois seios redondos e bicudos, quando o capitão lhes apresentou Joe. As duas sorriram monalisamente e ficaram a ver Joe afastar-se com o capitão.

- Atenção com estas boazonas, não parecem, mas mordem. É preciso ter muita ginástica para dar conta das duas, - avisou Ginkai a rir. Joe não conseguia imaginar o gordo do Ginkai com as duas siamesas na cama, se era isso que o outro teria querido insinuar.

20090517