Crónicas de Joe Iktana, major do Arctan, nave de intervenção do Tarsus-UNS4818, cruzador intergalático de exploração
20090521
Os primeiros tempos: Joe no Pelotão Hevdrung
Noutras vezes, o sentimento de estar a mais era reforçado por aqueles que o olhavam de soslaio ou com desconfiança. Era o caso dos tenentes Wojtech e Fink.
Felizmente não eram todos assim e o pelotão Hevdrung, onde começara por ser integrado de início, até o acolhera bem. Faziam parte do esquadrão de ataque do Troy, a maior nave de apoio do cruzador intergalático Tarsus. Como pelotão de jovens recrutas que era o H, eram pau para toda a obra e eram-lhes relegado as missões mais taxativas, de escolta, de vigilância, de acompanhamento, o trabalho de terreno e de rotina que não interessava aos outros. O H servia para que os novos a bordo se habituassem ao ramdam do Tarsus e o alto-comando soubesse posteriomente onde encaixá-los.
O H era passagem obrigatória para quase todos os "caloiros" e todos tinham como objectivo ser promovidos para uma outra equipa o mais depressa possível. Era preciso fazer as provas.
No primeiro dia, Joe entrosou conversa com Clark, Lowry e Tellini. Os outros pareceram-lhe mais distantes. E o futuro viria a dar-lhe razão nas suas primeiras impressões.
20090520
20090519
O capitão Ginkai
Ginkai acolheu-o com um "zdravstvouytié!" (bom dia) gutural, o que desde logo mostrava que o capitão conhecia as origens russas e arménias de Joe. Ou tê-lo ia feito por pura afirmação étnica? Em todo o caso, o capitão fê-lo sentar, ordenou a activação de um ecrã-holograma meio-metro por cima da secretária. “Vamos lá ver quem temos aqui!” pediu com voz autoritária e o ficheiro militar de Joe logo começou a desfilar no quadro transparente. De onde estava, Joe via as informações a correr ao contrário, mas percebia o que ia retendo a atenção de Ginkai. Enquanto lia, o capitão rosnava para que o ficheiro voltasse atrás, para que abrandasse ou acelerasse, para que sublinhasse algumas passagens. Lia, relia e mirava Joe entre duas linhas. A testa larga franzia-se, circunflexava as espessas sobrancelhas, o que fazia com que entre estas e as bochechas salientes os olhinhos pareciam mirrar até se tornarem pequenos pontos negros. Depois, de um brusco, elevava o sobrolho, voltava a mergulhar os olhos no ecrã, quase como se procurasse algo.
Joe notou que ele passara sem prestar a mínima atenção a tudo o que tinha a ver com a sua biografia civil e começara apenas a ler com atenção a partir do momento em que Joe entrara na academia de Buenos Aires. Interessou-lhe particularmente as suas especificidades em camuflagem e soltou uma larga gargalhada estremeçedora quando leu que o recruta à sua frente era perito em acções furtivas. Nisto, ordenou ao ecrã para apagar-se e dirigindo-se a Joe, perguntou:
- Então, soldado, já com saudades de Buenos Aires?
- Só lá estive para a minha formação militar, capitão! Na realidade, sou arménio e...
- Soldado, não lhe perguntei sobre as suas origens -, rosnou o capitão, sinal sonoro que fez com que Joe se endireitasse mais na cadeira. Mas depois o outro abriu um sorriso.
- O que eu queria saber, Iktana, era se aqui em cima já sentia falta dos bons ares de Buenos Aires, eheh. Ah, tenho boas recordações dessa bela cidade onde ganhei bastantes corridas de carros e ... - após num suspiro, soltou - ...onde conheci uma Nora Silvera que me enfeitiçou. Ah, que mulher endiabrada!
Dizendo isto esfregou os flancos da barriga com satisfação. Era um gesto peculiar, que Joe estranhou mas ao qual, não o sabia ainda, haveria de habituar-se.
- Sabe Iktana, sou um maluco por corridas de bólides, adoro conduzir. Em terra firme, quer dizer. Conduzo tudo, desde Panhards, Peugeots GT e Maserratis do século XX, a Ferraris Bold, Spikes 200, Spiders Nanos e B-Mercedes Turbo Lifter, Strike Panthers. Tudo o que tenha quatro rodas, eheh! Quando era jovem fui piloto profissional, sabia, Iktana? Fui campeão, sete anos consecutivos, do Circuito Panamericano e cinco vezes campeão do Ráli de Marte.
Joe não percebia nada de carros, tinha vagamente ouvido falar nessas corridas quando era jovem e conhecia muito menos o glorioso palmarés do capitão. O mundo das corridas era algo por que nunca se interessara.
- Bom, não faz mal, Iktana, ninguém é perfeito, eheh! Já fico contente por você ser um intercontinental, como eu, raios, e não um puto yankee! Bom, venha daí, vamos dar uma volta ao cruzador e vou-lhe apresentar os outros elementos do meu pelotão.
Enquanto subiam num elevador tubular para um piso superior, o capitão continuava tagarela:
- Já alguma vez esteve a bordo de uma nave como estas, hein? – Joe não teve tempo de responder, já o outro prosseguia - o Tarsus é considerado uma das jóias da coroa da federação, sabia? Foi construído há apenas 15 anos, mas sempre que vem à doca é reapetrechado com a mais recente tecnologia de guerra e exploração. Sim, porque temos que estar prontos para o que der e vier, não é, Iktana? ... O Almirantado tem muito orgulho nesta nave e quer aguentá-la performante o mais tempo possível. É uma das únicas da sua geração a ter efectuado missões até Gernsback, nos confins conhecidos do universo. As nossas missões de exploração duram normalmente cinco anos, mas muitas vezes temos que acorrer aos quatro cantos da Via Láctea para as mais diversas urgências.
Nesse momento, passaram por Joe e Ginkai duas siamesas de Cassiopeia. Eram humanóides, mas eram sobretudo reconheciveis pelos seus olhos azuis em amêndoa e as orelhas elegantemente estriadas. Dizia-se que as cassiopianas eram sempre de uma beleza estonteante e adoravam sobretudo os humanos do sexo masculino. E apesar destas serem duas num só corpo, uma loira, a outra morena (era cosmética, porque na realidade todos os nativos da constelação de Cassiopeia tinham o cabelo albino), eram duas beldades fatais. Eki e Aki eram operadoras de transmissão no Tarsus. Tinham um corpo esguio, quatro braços e do mesmo tronco despontaram debaixo do uniforme ajustado ao corpo dois seios redondos e bicudos, quando o capitão lhes apresentou Joe. As duas sorriram monalisamente e ficaram a ver Joe afastar-se com o capitão.
- Atenção com estas boazonas, não parecem, mas mordem. É preciso ter muita ginástica para dar conta das duas, - avisou Ginkai a rir. Joe não conseguia imaginar o gordo do Ginkai com as duas siamesas na cama, se era isso que o outro teria querido insinuar.
20090517
20090411
20090322
Drago e Ina
Joe conhecera o major Drago Foxer quando o seu esquadrão teve que cobrir o Arctan no ataque à insurreição da colónia Suna, no quadrante Vega. Regressados a bordo, Joe insistira em pagar-lhe um copo no bar47. Depois de meia-dúzia de vodkas e absintos, ficaram amigos.
Sim, Foxer, esse mesmo nome que vem nas barras de chocolate com arroz, no bom vinho "VinoVeritas" de Orion, nas estações orbitais de abastecimento, etc. Foxer é com certeza uma das marcas comerciais mais conhecidas da galáxia. E é por isso também que a Drago o espaço lhe está no sangue. Praticamente nasceu a bordo de uma nave. Os seus avós começaram por ser efectivamente donos de uma frota de navios de transporte de mercadorias intergalácticos, no início do século passado. Actualmente, possuem as suas próprias estações orbitais comerciais (em Marte, Saturno e Jupiter, sem contar fora do sistema solar) e constroem as suas próprias naves, e inclusive alguns cruzadores para a Federação, como o Tarsus. Joe nuna mencionara que conhecia esse pormenor a Drago, talvez por temer que o amigo se melindrasse ao pensar que Joe estaria a questionar a legitimidade da sua afectação.
Embora financeiramente não precisassem, Dargo e a irmã eram os primeiros do clã Foxer a terem-se alistado na frota federal. Pelo gosto da aventura, confiara entre risos Drago um dia a Joe. A sua irmã, a tenente Ina era uma bonita e escultural morena, mas tímida e doce no trato. Ina estava aliás sob o comando do irmão na unidade Foxer. Ina era irresistível. Mas resistia às investidas de todos os pretendentes. De todos os que Joe conhecera até agora. E até às suas, infelizmente. Ina nunca e deixara seduzir por Joe, mas com este, talvez graças à proximidade com o irmão, deixou nascer uma amizade cúmplice, onde tolerava os seus piropos. Talvez por nunca serem abusivos, gostava de pensar Joe; mas também não eram inocentes de todo. Em todo o caso, ao longo dos anos a amizade instalou-se e fortaleceu-se. Uma amizade a dois, e depois, uma amizade a três.
20090321
Um dia normal a bordo
O general Laurent expôs a situação dos ataques do Lecenti às bases do quadrante beta, os atentados dos insectos Arteeeles às colónias de Murabe. Anunciou ainda a integração de toda a tripulação de todo o pelotão do P35 e do P36 para o Victory, o que fez alguns remexerem nos seus cadeirões.
O general pediu depois que os presentes esquadra propusessem planos e estratégias de contra-ataque.
Os coronéis Mayers-Harihito e Gleis esboçaram planos e novas estratégias, mas a mim pareceu-me que ficara tudo igual. Anunciaram ainda que o Tarsus tinha a partir de hoje um novo contra-tropedeiro, especializado para o ataque aos Arteeeles.
Coube ao jovem capitão Sloran Daren apresentar o Droy 3, pronto a ser lançado pelo major Tellini, que tinha sido transferido do P36 para chefiar a tripulação inicial de 5 homens. Entre questões e contrapontos de Kudovik, Gleis explicou que o Droy 3 iria funcionar para ataques cirurgicais e em binómio com o Droy 2 e passam a ser as naves de vanguarda do Troy. Ambos os esquadrões deviam apoiar o Hevdrung e o Dniepr, numa escalada. O Arctan funcionaria na configuração trio de ataque com o D2 e o D3 e a partir de agora em binómio curto com o Pelotão 103.
O coronel Kudovik limpou a garganta como se se preparasse a discursar e disse que o que precisávamos mesmo era de ser mais flexíveis aquando de ataques com inimigos utilizando uma estratégia nova, que os nossos esquemas de ataque e de defesa eram demasiado rigidos e que esse era o nosso principal ponto fraco. O que ele não percebia é como é que tinhamos tantas derrotas recentes e retiradas quando o Tarsus era o melhor cruzador da terceira frota.
"Coronel, sugere que da próxima vez lancemos o nosso ataque sem estratégia pré-definida, que as nossas forças sejam despejada em alegre randomínia pelo espaço?...", ironizou Hirihito.
"Não, caro coronel, o que eu sugiro é que os nossos pilotos e oficiais aprendam a improvisar e a reagir. Que não deixem o vácuo atrofiar os músculos e os neurónios, que deixem de ser preguiçoso", gritou o final da frase ao bater com o punho cerrado na mesa, que estremeceu de ponta a ponta. Ouviram-se uns protestos,
"Meus caros, vamos lá a ter calma", tentou Laurent, "não estamos aqui para lutar uns contra os outros, mas para perceber como podemos nos coordenar melhor, como podemos...".
"Comandante, se me permite", interrompeu Kudovik, "os nossos homens têm que passar treinos e testes diários ou mesmo várias vezes ao dia e fazerem face a situações novas, improváveis ou até que possam parecer impossível de vencer. Só assim estarão minimamente preparados para o que nos espera na nebulosa de Nari..."
A sua proposta vai ser estudada, Kudovik. Vou falar com os gajos da estratégia, saberá da minha decisão ainda hoje.
Fim do briefing. Pequeno-almoço francês no René Café, no piso 12 do Tarsus, com o Drago e a Ina. Vou pedir croissants à antiga e café com leite. Depois já sei que me vão desafiar para uma meia-maratona pelos conveses exteriores. Ao meio-dia, exercícios tácticos com a tripulação do Arctan no perímetro de segurança. À tarde, controlo técnico e recalibragem da nave. Noite livre para todos, menos para os que estão de piquete. Hoje, Luke e Giulia.
20090320
Flashback histórico: O ano de 2063
Setembro 3, 2063
Há muito que pensávamos estar prontos. Prontos para o primeiro contacto. Arrogantes e orgulhosos da nossa tecnologia, da nossa indústria, da nossa ciência, da nossa arquitectura, da nossa literatura, da nossa civilização acreditávamos há mais de um século que seres de outros mundos que, por ventura, passassem na vizinhança do nosso planeta haveriam de deter-se e maravilhar-se ou, pelo menos, achar curioso o nosso pequeno mundo azul pululante de vida e ansioso por fazer parte de um destino maior.
Mas o próprio conceito de primeiro contacto estava erróneo. Errado porque nos recusámos a entender os sinais anunciadores, sinais tão claros e tão óbvios que uma criança teria percebido. E, no entanto, esses sinais foram-nos deixados ao longo dos séculos por tantos povos sábios. Preferimos o conforto da nossa cegueira. Preferimos calar o que não conseguíamos explicar. Considerámos esses indícios curiosidades atípicas e ocasionais, que não eram dignos de explicação e que deveriam ser, por certo, fruto da imaginação mística galopante das civilizações primitivas que nos precederam neste planeta.
Com a nossa presunção característica, nada ou pouco aprendemos da nossa história e da herança dos nossos antepassados. Esquecemos que foram essas civilizações que deram origem às nossas crenças, às nossas línguas, às nossas culturas. Algumas dessas civilizações sabiam, tinham alcançado um nível de consciência que nós, com toda a nossa tecnologia, estamos ainda hoje longe de igualar. Os nossos antepassados da Atlândia, de Mu, de Xia, de Badari, de Eridu, de Ur, de Mari, da Acádia, de Tenochtitlan, de Harappa sabiam que o nosso planeta não era um ilhéu perdido no mapa celeste e que nós não estávamos, nem estamos, nunca estivemos sozinhos.
O ano exacto
As palavras de ordem este ano eram "primeiro contacto". Eram as mais googladas, as mais procuradas nas ciber-enciclopédias e nas redes de discussão em linha.
Este ano de 2063 havia sido declarado pela Unesco "Ano Roddenberry". Desde Janeiro sucediam-se por muitas cidades à volta do globo os espectáculos, os concertos, os festivais de cinema, de teatro e as convenções de trekkies e anti-trekkies. Todos os tipos de media, desde os skypes para animais domésticos às revistas à antiga, em papel verdadeiro, debruçaram-se sobre o mesmo tema. E as redifusões do episódio da mítica série Star Trek que fixava a primeira visita extraterrestre à Terra a 5 de Abril deste ano eram transmitidas non-stop.
Até os ficciohistoriadores, que tinham inventado há coisa de uma década uma nova disciplina, mais hóbi literário do que verdadeira ciência humana, tinham decidido organizar um grande happening em Bozeman, no estado do Montana (lugar onde deveriam desembarcar os famosos Vulcanos de Roddenberry), para comemorar mais um dos muitos não-eventos que a ficção científica e os romances de antecipação haviam anunciado ao longo do último meio milénio.
O dia 5 de Abril marcou assim o ponto alto das festividades. Num espectáculo patrocinado pelas maiores marcas do mundo que durou 24 horas e que pode ser visível de todos os pontos da Terra, a base lunar internacional aderiu aos festejos e a face luminosa da lua arborou o logo star trek, logo seguido em slides sucessivos pela bandeira da Federação dos Planetas Unidos e dos estandartes vulcano, klingon, romuliano, cardassiano, bajorano e de todas as raças criadas pela série.
A Humanidade, ou pelo menos parte dela, exorcizava assim, através de uma festa colectiva e globalizada, um dos seus medos primórdios: o contacto com seres de outro mundo.
E mesmo se, pelos registos oficiais, militares ou civis, nunca nenhum ET tivesse sido avistado até aqui, tudo fazia prever que isso iria acabar por aconteceu nos próximos anos ou décadas.
E aconteceu. Este ano. Mas não foi nada como muitos de nós esperávamos.
Era um domingo, 5 de Agosto. O dia tinha nascido chuvoso e cinzento na Europa.
20090319
Rearmando o Arctan
O Tarsus e toda a terceira frota (criada no incício da Federação) tinham atingido a fronteira com o império Lecenti e queriam fazer recuar a raça azul para as suas linhas iniciais, para lá do enxame de Virgem. Várias batalhas tinham-se travado desde que os Lecenti tentaram forçar a fronteira federal há cerca de três anos e a Federação tinha sido obrigada a ceder zonas inteiras do quadrante perante os invasores ávidos. Joe perdera alguns amigos a bordo nos recentes ataques dos Lecenti, sobretudo vários colegas do Victory.
Desde Janeiro uma nova frota tinha sido criada, no sistema de itona-Aantil, a 28a. Nunca a Federação tinha tido tantas frotas operacionais em simultâneo no universo conhecido. Depois da paz com a União de Iu, o armistício com os Arrioc, os perigos iminentes eram os Lecentis, na galáxcia, e os Kolnares, nos arredores imediatos desta.
A Federação não se tinha entendido para uma cooperação com a Aliança de Andrómeda, nomeadamente para a pacificação das colónias kolnares, mas entre as duas federações havia uma entente tácita.
A Aliança de Andrómeda tinha sofrido recentemente um ataque diplomático e vários tinham sido os planetas e povos a abandonarem a aliança e a abrirem-se mais à federação.
Os sinutinos, dependentes das colónias kolnares, tinham-se revoltado e deposto o seu monarca déspota e procuravam o apoio da federação e da aliança. Outras tentativas de sublevações tinham sido tentadas, mas sem o sucesso dos sinuitas.
Na própria Federação, o jogos de poderes tinha complicado as tomadas de decisões. Alguns haviam temido o estremecimento do Comando.






