Ginkai levou-o até aos aposentos da equipa do H e apresentou-o ao tenente Markus Wojtech, ocupado diante de um ecrã. Wojtech secundava o velho Ginkai no pelotão.
- "Tenente Wojtech, deixe-me apresentar-lhe a mais recente aquisição do H!", gracejou o velho dando uma sonora palmada nas costas de Joe, que não se deixou curvar perante a chapada e se esforçou para bater continência mantendo-se o mais verticalmente possível.
Wojtech virou-se mas não conseguiu esboçar um sorriso. Era de estatura alta e fina, cabelo liso, quase grisalho, rosto magro e afunilado.
- "Sargento!", soltou sem ênfase.
- "Olhe, Wojtech, o sargento Iktana tem uma folha de serviço impressionante, sabe. Vem recomendado por Gattai e DeSotto...".
- "A sério...?", balbuciou o outro.
- "...e agradou muito ao coronel Anthony, que no-lo destacou especialmente para o H, depois de lhe termos pedido mais efectivos. O Iktana serviu a bordo do Noikias, já combateu com os kolnares, o que faz com conte com mais experiência que alguns dos oficiais a bordo deste...".
O outro interrompeu o velho: "E... por onde pára nestes dias esse sacana do Anton, sargento Iktana?"
O velho escalfou-se: "Oh, Wojtech, francamente, o moço..."
"Como deve supôr, meu tenente, não sei, não mantive contacto nem tenho notícias recentes de Anton. Excepto...", hesitou, "...as que passam nas informações oficiais", lançou Joe.
"A sério?...Então, mas ouvi dizer que não havia esquadrão mais unido do que o do Noikias. Ou se calhar faz parte das muitas balelas que contam sobre eles, não é?...", disse Wojtech.
"Faz parte da lenda...", gracejou Ginkai.
"Lenda!... Lenda, Rod? Estamos a falar de perigosos criminosos, piratas sanguinários da pior espécie, uma ameaça para a Federação!", vociferou o outro.
Joe manteve a calma: "Se soubesse onde eles paravam, creia, Tenente, que seria o primeiro a avisar o almirantado para que capturassem esses renegados".
"Hum, pois, pois...", balbuciou Wojtech dubitativo.
Na verdade, Joe não tinha absolutamente nenhum sentimento de hostilidade contra Anton, muito pelo contrário. Devia-lhe muito. Um acaso de circunstâncias fizera com que Iktana fosse transferido da nave de Anton para a Terra meses antes de o Noikias desaparecer na Nebulosa de Nari. Caso contrário, Joe sabia-o, hoje faria parte daquele grupo a quem agora a Federação apediava de rebeldes, que o almirantado denominava de "desertores", "piratas" e "renegados".
Na realidade, quem abandonara o Noikias à sua sorte fora precisamente a Federação. Mas, tinham-lhe ensinado desde cedo, "a ordem de um superior não deve ser discutida". Ele tinha a sua opinião sobre o que acontecera em Nari mas aquele não era o momento nem o lugar para encetar debates de política e estratégia militar.
E era exactamente desses sentimentos que Wojtech desconfiava.
"Bom, sabe Iktana, você não é o único noviço a chegar ao H. Também vamos recber um novo recruta, directamente da Academia Militar, eheh. Quando é chega o puto, Wojtech?"
"Chega depois de amanhã. É um pequeno génio ao que parece. Foi o primeiro da formatura deste ano de todo o continente africano. Heu... vem da Academia M5, de Dar es Salaam, Tanzânia", leu Wojtech.
"Um black? Que fixe!...", riu Ginkai.
"Não me parece...", corrigiu Wojtech. "Acho que é árabe, diz no dossier dele que nasceu em Tatouine, no sul da Tunísia. Chama-se Erwan Ben Ali, tem 21 anos ".
Pelas maneiras de Wojtech, Joe não gostou dele desde o primeiro instante.
Era facto sabido que Anton e a tripulação do Noikias eram dos mais procurados na galáxia pela Federação. As acusações iam desde desobediência a ordens directas, insurreição, fuga ao tribunal marcial, deserção da Federação, roubo de uma nave do almirantado, assalto a naves de carga da federação, pirataria, etc. Eram tantas como as histórias qeu sobre eles se contavam, como assaltavam as naves da federação para alimentar certas colónias rebeldes, como eram os únicos a enfrentar destemidamente os kolnares, como já há anos escapavam às naves da federação. O tempo fez com que a lenda fizesse deles heróis e não piratas. Pelo menos, aos olhos das populações de vários mundos.
Joe assegurou Wojtech que estivera sob as ordens de Anton apenas quando este ainda fazia parte da hierarquia militar e que desde então perdera o contacto com ele.
"Sim, isso já eu li no seu dossiê", disse lapidar o outro.
Joe foi salvo pela entrada de rompante do resto do esquadrão. O H era na altura composto pela segunda tenente Vika Fink, Clark Eisenhower, Paul Lowry, Marco Tellini e o novo recruta, Ben Ali.
Vika era uma verdadeira virago, já quarentona, estatura musculosa e atlética, cabelo curto escuro, o uniforme colado ao corpo, que Joe não achou nada sexy. Clark era a cara chapada do super-homem, o que a BD imortalizara, atlético, bem parecido, ombros largos, voz firme. Paul era o intelectual, atitude reflectida e voz pousada, muito parecido com Tellini, só que o primeiro era moreno e o segundo loiro. E por fim havia Ben Ali, mais novo que Joe e que também fora integrado nessa semana ao H.
Joe fez logo amizade com Clark e Paul, mais tarde com Tellini, mas com os outros Joe nunca conseguiu a mesma proximidade. E isso devia-se porque Joe sentia, erradamente ou talvez não, que estes não o tratavam como a um igual.
Primeira missão
O Tarsus zarpou da órbita terrestre algumas semanas depois, em 23970123 (23 de Janeiro de 2397). Primeira missão: transportar reforços militares, material técnico e mantimentos até aos planetas gémeos Kilahdah, do sistema solar Nalegam, no quadrante alfa da galáxia e garantir a sua segurança até ao render da guarda pelo cruzador Lafayette. Kilahdah era desde há pouco alvo de ataques por parte de piratas e o Lafayette tinha que regressar à Terra para reparações e reforço em novos homens.
Nas proximidades de Saturno, o Tarsus entrou no subespaço e começou a sua viagem que devia durar quatro dias. Ao fim do primeiro dia, ao passar pelo sistema Tauris, detectou um SOS e saiu do hiperespaço.
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