Depois de acabar a sua formatura na academia militar Estras 3, em Buenos Aires, havia postulado para uma missão interestelar, mas tinha apenas conseguido ser enviado para o Posto Lunar Sul 2 como "pisa-papéis", como ainda hoje se designavam os estagiários administrativos. Em onze meses, três ou quatros missões haviam lhe sido negadas por excesso de contigente, devido à sua juventude, inexperiência ou a falta de referências de altas patentes. Ou por todas essas razões ao mesmo tempo.
A verdade é que eram necessários soldados e oficiais para focos de conflito com os Kolnares, em Nari, com os Shak'rtai, na constelação Tauris, e até para policiar colónias e postos federais um pouco por toda a galáxia. Faltavam naves de transporte e de guerra para dar resposta aos pedidos que chegavam de todos os quadrantes. Escasseavam também as naves de carga para trazer dos planetas mineiros e das luas industriais as matérias-primas necessárias para fazer crescer a armada. Os atrasos na entrega desses mesmos materiais e na conclusão dos navios também não ajudavam a melhorar a situação. A Federação tinha apressado a construção de novos cruzadores, mas os navios da classe UNS demoravam pelo menos três anos a ser construídos e as naves de médio-porte, treze meses.
Finalmente, Joe conseguiu uma missão de três meses a bordo do Not Ikias, um bombardeiro federal onde fez as suas provas sob as ordens do capitão Anton Ralph. Foi lá que conheceu o sargento Charlie Ross e os seus loucos soldados da fortuna: Hernán Couteaux e Johnny Little. E a escultural e bela Chrissy Dessah. Era uma equipa de choque, que funcionava como os dedos de uma só mão. Dizia-se que era por isso imbatível.
Conta-se que depois de o Noikias ter sido abatido na nebulosa de Nari por uma colmeia kolnar - onde Anton e a sua equipa tinham acorrido para responder a um pedido de socorro, apesar de o alto comando federal lhes ter formalmente interdito agir fora das fronteiras federais (a zona franca) e por esse motivo lhes ter recusado enviar auxílio, condenando-os assim à sua sorte -, a equipa do Not Ikias escapou, a nave não, mas os elementos sobreviveram algures na cintura de asteróides de Ecopo e reconstituiram-se como uma tropa mercenária na lendária nave Horizon. Não se sabe bem porque razão a major Dessah abandonou a equipa e regressou à Terra, mas foi substituída algum tempo depois por Ushedesh, um nativo do sistema das Hesperides. A partir daí parece que a equipa de Anton ficou mais forte do que nunca. Mas nessa época já Joe não fazia parte da equipa.
Posteriormente, por diversas ocasiões, Joe teve que trabalhar com Anton e os seus mercenários, lado a lado, mas também teve de enfrentá-los algumas vezes. Hoje, dez anos depois do primeiro encontro, alguns deles como Anton, Hernán e Ushedesh trabalhavam de vez em quando com a tripulação do Arctan, a nave que Joe comandava agora. Havia sobretudo entre eles respeito, mesmo se Joe sabia que eles eram incontroláveis e não tinham nem lei nem grei. Paradoxalmente, sabia-o intimamente: também fora graças a eles que muito aprendera sobre o facto de trabalhar, viver e ... sobreviver no espaço.
Foi graças às referências do capitão Anton (antes de este se tornar um militar a soldo próprio) que o recomendou junto do sargento Mahlia Gouvic e do capitão De Sotto, que recebeu a afectação para o Tarsus, onde chegou a 3 de dezembro do ano estelar de 2396.
Joe começou no Tarsus como sargento no pelotão Hvedrung do capitão Rod Ginkai, um dos vários pelotões do Troy, a maior nave de apoio do Tarsus; depois, passou a tenente sob as ordens do capitão Markus Wojtech, quando Ginkai desapareceu em missão em Remam 7; promovido a capitão, Joe foi chamado a trabalhar com o major Gibran Artilius, que comandava o contra-torpedeiro Arctan.
Passados cinco anos no Tarsus, foi-lhe entregue o comando do Arctan, quando Gibran foi nomeado coronel no posto estelar Gernsback. Hoje Joe era major da pequena nave, integrante do Tarsus. A sua equipa era hoje constituída pelo capitão Cross Silva, um destemido e sanguíneo oficial dos fuzileiros, que tinha já recebido a cruz de prata da elite militar; a tenente Giulia Schott, arrojada perita em estratégia militar; o calmo e sereno sargento Nico Marczin, que era igualmente médico-op; Luke Saare, perito em artilharia pesada; e Pete Zhou, especialista em navegação e exotransmissões.
Nico era o último a ter integrado a equipa e ainda procurava as suas balizas. Giulia tinha substituído Yonna Driack quando foi descoberto pelas instâncias militares que Joe e Yonna se tinham relacionado intimamente. Joe ficara destroçado quando lhe retiraram da equipa a líndissima franco-polaca, mas não pode impedir que ela fosse destacada para um dos postos mais longíquos da federação, a estação Livingstone. Sabia que depois de alguns anos ela tinha casado com um engenheiro irlandês da base orbital terrestre no planeta vermelho de Akam, um Scott qualquercoisa. Já fora há quatro anos, mas Joe ainda pensava nela.
Quando começou a comandar a tripulação do Arctan, do esquadrão faziam ainda parte as primeiras ajudantes Vina Gattai e Naty Morales, mas estas tinham deixado a equipa pouco antes de Yonna, por solicitação expressa de Joe. A primeira foi transferida para as navegações na meia-popa do Tarsus. A segunda, depois de ter passado por uma outra equipa, em que havia sido acusada de insubordinação qualificada, foi finalmente recambiada para a Terra, expulsa do Almirantado. Diz-se que reintegrou a vida civil reciclando-se em guia turística na Antártida. Joe desconfiava que haviam sido elas a denunciá-los, Yonna e ele, junto dos seus superiores e preferia mil vezes tê-las abandonado num planeta morto ou à beira de um buraco negro.
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