O primeiro contacto não teve lugar
Setembro 3, 2063
Há muito que pensávamos estar prontos. Prontos para o primeiro contacto. Arrogantes e orgulhosos da nossa tecnologia, da nossa indústria, da nossa ciência, da nossa arquitectura, da nossa literatura, da nossa civilização acreditávamos há mais de um século que seres de outros mundos que, por ventura, passassem na vizinhança do nosso planeta haveriam de deter-se e maravilhar-se ou, pelo menos, achar curioso o nosso pequeno mundo azul pululante de vida e ansioso por fazer parte de um destino maior.
Mas o próprio conceito de primeiro contacto estava erróneo. Errado porque nos recusámos a entender os sinais anunciadores, sinais tão claros e tão óbvios que uma criança teria percebido. E, no entanto, esses sinais foram-nos deixados ao longo dos séculos por tantos povos sábios. Preferimos o conforto da nossa cegueira. Preferimos calar o que não conseguíamos explicar. Considerámos esses indícios curiosidades atípicas e ocasionais, que não eram dignos de explicação e que deveriam ser, por certo, fruto da imaginação mística galopante das civilizações primitivas que nos precederam neste planeta.
Com a nossa presunção característica, nada ou pouco aprendemos da nossa história e da herança dos nossos antepassados. Esquecemos que foram essas civilizações que deram origem às nossas crenças, às nossas línguas, às nossas culturas. Algumas dessas civilizações sabiam, tinham alcançado um nível de consciência que nós, com toda a nossa tecnologia, estamos ainda hoje longe de igualar. Os nossos antepassados da Atlândia, de Mu, de Xia, de Badari, de Eridu, de Ur, de Mari, da Acádia, de Tenochtitlan, de Harappa sabiam que o nosso planeta não era um ilhéu perdido no mapa celeste e que nós não estávamos, nem estamos, nunca estivemos sozinhos.
O ano exacto
As palavras de ordem este ano eram "primeiro contacto". Eram as mais googladas, as mais procuradas nas ciber-enciclopédias e nas redes de discussão em linha.
Este ano de 2063 havia sido declarado pela Unesco "Ano Roddenberry". Desde Janeiro sucediam-se por muitas cidades à volta do globo os espectáculos, os concertos, os festivais de cinema, de teatro e as convenções de trekkies e anti-trekkies. Todos os tipos de media, desde os skypes para animais domésticos às revistas à antiga, em papel verdadeiro, debruçaram-se sobre o mesmo tema. E as redifusões do episódio da mítica série Star Trek que fixava a primeira visita extraterrestre à Terra a 5 de Abril deste ano eram transmitidas non-stop.
Até os ficciohistoriadores, que tinham inventado há coisa de uma década uma nova disciplina, mais hóbi literário do que verdadeira ciência humana, tinham decidido organizar um grande happening em Bozeman, no estado do Montana (lugar onde deveriam desembarcar os famosos Vulcanos de Roddenberry), para comemorar mais um dos muitos não-eventos que a ficção científica e os romances de antecipação haviam anunciado ao longo do último meio milénio.
O dia 5 de Abril marcou assim o ponto alto das festividades. Num espectáculo patrocinado pelas maiores marcas do mundo que durou 24 horas e que pode ser visível de todos os pontos da Terra, a base lunar internacional aderiu aos festejos e a face luminosa da lua arborou o logo star trek, logo seguido em slides sucessivos pela bandeira da Federação dos Planetas Unidos e dos estandartes vulcano, klingon, romuliano, cardassiano, bajorano e de todas as raças criadas pela série.
A Humanidade, ou pelo menos parte dela, exorcizava assim, através de uma festa colectiva e globalizada, um dos seus medos primórdios: o contacto com seres de outro mundo.
E mesmo se, pelos registos oficiais, militares ou civis, nunca nenhum ET tivesse sido avistado até aqui, tudo fazia prever que isso iria acabar por aconteceu nos próximos anos ou décadas.
E aconteceu. Este ano. Mas não foi nada como muitos de nós esperávamos.
Era um domingo, 5 de Agosto. O dia tinha nascido chuvoso e cinzento na Europa.
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